segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Angra e William Shakespeare


Um encontro entre duas formas de arte.

 O sétimo álbum de estúdio da banda Angra é conceitual e gira em torno da peça “A tempestade” de Shakespeare, disso muitos sabem. O problema maior fica por conta de compreendê-lo, captar a essência de cada música, o que cada uma delas representa.
Eu passei alguns dias lendo a peça e buscando encontrar as devidas conexões entre as letras das canções e a história por trás delas, digo, na verdade eu li porque quis ler mesmo, mas foi bom para compreender um pouco mais sobre esse álbum tão criticado. No fim, resolvi fazer este texto analisando as letras do disco, uma por uma. Então... pois bem... comecemos:

Viderunt te aquae – A composição que abre o disco traz 5 vozes em contraponto e apresenta a tempestade aos ouvintes. As palavras ditas em latim “Viderunt te aquae / Deus viderunt te aquae / Et timuerunt / Et turbatae / Sunt abyssi” foram retiradas do salmo 77 da bíblia. De acordo com Rafael Bittencourt (ou Kapiroto, ou Bitteca, etc): “No salmo 77 as águas representam as transformações nos monólogos deste homem e as mudanças de seu ponto de vista. Justamente como o principal personagem, Próspero”.

Arising thunder – Se passa na cena I do primeiro ato da obra shakespeariana, quando os personagens estão a bordo de um navio. Ela possui uma batida bem acelerada e representa todo o sentimento de vingança do Próspero (o legítimo Duque de Milão) com relação ao seu irmão, Antônio (o usurpador que se fez Duque de Milão), e seu cúmplice, Alonso (Rei de Nápoles). Nesse momento, o Próspero utiliza de sua magia e invoca a tempestade, visando atrair seus inimigos à ilha deserta para, enfim, poder botar seu derradeiro plano em prática. Dessa forma, todos os presentes no navio começam a ter suas vidas manipuladas e passam a jogar um jogo secreto, um jogo criado por Próspero.
“...you play my secret game... Arising thunder! Welcome to me, you fall alone”.

Awake from darkness – Cena II do primeiro ato. Essa canção mais uma vez passeia pelo sentimento vingativo de Próspero, além de sua reflexão ao contar para sua filha, Miranda, sobre o golpe que seu irmão lhe havia dado quando se apossou do seu Ducado. A letra também deixa clara a paixão de Próspero pelo conhecimento e sabedoria, mostra o amor que ele sentia pelos livros. Tanto que tinha uma biblioteca na qual prezava mais que o próprio Ducado. Foi dentro dos livros onde encontrou a esperança. Eles que tornariam possíveis o seu retorno, sua volta por cima, sua vingança.
“A broken dignity, an upsurge soon to be. Within these books I find my hope and liberty”

Lease of life – Uma balada surge para anunciar o amor entre Ferdinando (Filho do Rei de Nápoles) e Miranda. A primeira pessoa na música agora é Ferdinando, e ele está acordando após ter sido atingido pela tempestade. Os sons do além que ele escuta são de Ariel cantando (um espirito etéreo que está a serviço de Próspero), isso o deixa mais confuso e desorientado. Sua desorientação só cessa quando se depara com Miranda, que, a princípio, acreditou se tratar de uma miragem. Miranda, que vivia na ilha desde a infância, nunca vira a imagem de outro homem que não o próprio pai. Esse é o primeiro encontro do casal. Eles juntamente com Próspero iniciam um diálogo que termina quando Miranda e o pai saem, deixando Ferdinando ali, preso, sem esperanças de reencontrar Alonso, e cada vez mais apaixonado pela donzela que acabara de encontrar.
“...Virgin as a Diamond, precious like a child. Lend thy hand, my heart“

The rage of the waters – Aqui a banda volta a flertar com os ritmos “étnicos” brasileiros. A música fala sobre um outro personagem, um personagem oculto, porém, um dos principais na história toda, senão o principal: a própria tempestade. A fúria das águas é uma metáfora para a raiva que Próspero sente e a “calma”, que é citada na letra, seria sua capacidade madura de dar fim a esse sentimento de vingança. A canção se passa no momento da chegada dos outros tripulantes à ilha. Todos eles estão tão desnorteados quanto Ferdinando, com os sentimentos transbordando e sem fazer a mínima ideia de que novas ondas estão a caminho. A fúria das águas. A raiva de Próspero.
“...A wave is on its way. It will collide against your soul when your fears are all tumbling in disorder in the ocean of new emotions”

Spirit of the air – Uma letra magnífica que retrata Ariel, o espirito do ar. Ariel é quem narra a canção. Ele tem a capacidade de ficar invisível para os olhos de determinadas pessoas, porém, quando quer ter visibilidade, toma forma de ninfa ou de harpia. Próspero o libertou da escravidão da Bruxa Sycorax e por vezes joga isso na cara do nobre espírito. Ele se torna um dos servos de Próspero, agradando-o e executando todas as suas ordens. Almeja alcançar sua liberdade através disso. Está por trás da tempestade enviada para o naufrágio do navio, e de tantas outras coisas que ocorrem naquela ilha, além de vigiá-la. Próspero, inclusive, sabe tudo que ocorre através deste servo. Por ser um espírito racional, Ariel tem plena consciência dos desejos sórdidos de seu Senhor e sabe também o quão não é bom vigiar os céus com os olhos de outra pessoa, ou, vigiar aquela devida terra.
“Before you can say "Spirit! Come and go!", my Lord, I'll bring the tempest, I won't even question...”

Hollow – A primeira canção a falar sobre o escravo selvagem e deformado Caliban. A composição tem um teor bem sombrio, trazendo consigo uma certa sensação de caos e desordem. Ela discorre acerca do sentimento de amargura que Caliban possui de seu amo por ter lhe roubado a terra que antes o pertencia. Filho de Sycorax, Caliban quer retomar seu reinado. Tanto que após encontrar-se com Estéfano (um despenseiro bêbado a quem Caliban vê como um Deus) e Trínculo, fora capaz de criar um plano para matar Próspero e ter a mão de Miranda como sua legítima Rainha. Plano esse que não funciona graças a Ariel que, ao alertar seu Senhor sobre tal conspiração, é enviado com a missão de acabar com tudo usando seus truques em forma de sons e ilusões.
“Lost in a maze of sounds. Clarity escapes, the wispers chase you away. Numb and unaware”

Monster in her eyes – Segunda letra a abordar o filho de Sycorax. Nesta Caliban fala sobre sua rejeição de uma forma mais sensível, mostrando o lado humano daquele que para muitos é considerado um monstro. Em ‘Monster in her eyes’ ele só quer sua liberdade de volta, quer ser visto de uma forma diferente, quer provar que não é aquele monstro que as pessoas imaginam. Ele também é mostrado como um ser que tem absoluta consciência de seus limites, sabe da sua capacidade, e possui um lado romântico. Ele não quer mais ser um monstro aos olhos de Miranda e luta pelo amor e a atenção dela.
“...and Miranda will see: all my sacrifice will be worth the price and never again I'll be a monster in her eyes...”

Weakness of a man – Aqui o eu-lírico volta a ser o Próspero em uma autoanálise. Neste momento, ele finalmente descobre toda a fraqueza de um homem, toda a sua fraqueza, e a enfrenta. Olhando para dentro de si, começa a refletir sobre as suas atitudes e tudo que houvera feito até ali com o intuito de levar seus inimigos a insanidade mental. Então ele começa a encarar alguns dilemas cruciais que nos levarão ao encerramento da peça, e do álbum. Sua sabedoria agora mostra um cenário diferente. Não há amor para todos.
“All this time my mind was in the past (...) Now living has revealed at last all the weakness of a man”

Ashes – A última composição do álbum traz uma sonoridade inicialmente melancólica, representando uma suposta conversa intrapessoal de Próspero. Por ser a canção final, ela se passa no último ato da peça, onde Próspero decide pôr fim a sua vingança, perdoando aqueles que um dia o traíram, e começar uma vida nova, dar um restart, deixando para trás todos os seus livros místicos e terminando com todos os feitiços que havia criado. Agora, é por seu mérito se tem algum poder. No fim das contas percebera que a vingança não levaria a nada, já conseguira recuperar seu Ducado, podia, enfim, se libertar. A letra termina com a frase mais famosa de toda a obra, dita por Próspero e que pode ser encontrada na primeira cena do quarto ato: “Somos feitos da mesma essência que nossos sonhos”.
“Forgiveness I embrace. Heaven sent hell away all my life, as a dream with opened eyes. I'll restart”

Nota: Senti falta de uma outra música que falasse sobre o amor entre Ferdinando e Miranda. Esse núcleo romântico é um dos pontos principais da peça..., mas... né... fazer o quê?


That’s all folks!

2 comentários:

  1. Muitos não aproveitam a musicalidade desse álbum, eu particularmente acho genial. Depois, obviamente, do temple, holy land e Aurora hauah.

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  2. Eu sempre amei esse álbum e... agora... ainda mais. Ele sempre foi muito rico... só não veio num melhor momento da banda.

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